Gostava de um dia poder conseguir transmitir aos meus filhos tudo o que significa para mim o Natal. E tudo é, em especial, os momentos passados em família. O Natal devido à sua magia, e enquanto crianças, marca-nos com recordações para a vida. E gostava muito que eles pudessem recordar os seus Natais com a mesma alegria e carinho que recordo os meus.
Os meus Natais de criança eram sempre passados em casa da minha avó materna, do outro lado da ilha. A ida para a "casa da avó", após a escola e nas vésperas do Natal, era sempre aguardada com muita ansiedade. Lá chegava o dia e a mãe, toda atarefada para não se esquecer de nada, enchia o porta-bagagem do Peugeot 404, cinzento, com grade no tejadilho, essencialmente, com roupa para todos nós. Afinal, éramos cinco crianças e ainda eram alguns dias de férias até à passagem de ano.
A viagem, feita normalmente já de noite pela estrada da Serra, era nesta altura acompanhada por um denso nevoeiro, que nos deixava ainda mais ansiosos, porque o pai tinha de conduzir devagarinho e nunca mais lá chegávamos. Mas a longa viagem, cheia de retas e curvas, subidas e descidas, paragens para recuperar dos enjoos e eventualmente deixá-los para trás, era compensada à chegada, pela recepção calorosa da tia Rosalina que, assim que ouvia o som do carro a chegar, corria para nos abrir o portão da casa e nos receber. E a nossa querida tia Rosalina, que me perdoem todas as outras em que me incluo, indiscutivelmente a Melhor Tia do Mundo, recebia-nos sempre com muita alegria e ternura! Os seus abracinhos fortes transmitiam a felicidade que genuinamente sentia por nos ver. E felizmente ainda assim nos recebe.
Íamos logo a correr, pelo terreiro a fora, procurar pela Avó. Normalmente, a Avó encontrava-se na "sua" cozinha a ultimar os brindeiros[2], que ela amassava num alguidar de madeira e que fazia questão de nos entregar em mão, um para cada um de nós. Vestida sempre de preto e de cabelo cinzento claro, apanhado sempre da mesma forma num tótó com ganchos pretos, recebia-nos com um abraço forte e meigo e envolto no cheiro a carvão que exalava da sua roupa. E lembro-me tão bem da "cozinha da avó": muito rústica, com uma janela e as paredes e o teto de traves grossas de madeira escurecidos pela fuligem do carvão. E o cheiro, inesquecível! Em frente à porta, havia uma mesa comprida de madeira grossa e bancos corridos que convidavam quem chegasse a sentar-se neles, nem que fosse por breves segundos como fazíamos. Sobre a mesa, um grande lençol branco, de algodão puro e muito pesado, dobrado em várias camadas, escondia e protegia do frio os tão ansiados brindeiros[1]. Alinhados de forma impecável, envoltos em farinha e ainda quentinhos, eram as testemunhas finais, se alguma réstea de dúvida alguma vez existisse, do amor e carinho com que tinha sido preparada a nossa chegada. E que bem sabiam, quentinhos, simplesmente barrados com manteiga. E se por acaso, nos tivéssemos adiantado, ainda tínhamos a sorte de poder ajudar a retirar do forno a lenha, com a ajuda da pá de cabo comprido, os vários pães envoltos em folhas de couve.
Depois íamos por momentos admirar a lapinha[2] com as searinhas, cujos grãos de trigo tinham sido semeados semanas antes. Com as peças pintadas à mão, musgo verdinho e algumas luzes a decorar, ano após ano, lá se mantinha o presépio no mesmo sítio, intocável.
Os meus Natais de criança eram sempre passados em casa da minha avó materna, do outro lado da ilha. A ida para a "casa da avó", após a escola e nas vésperas do Natal, era sempre aguardada com muita ansiedade. Lá chegava o dia e a mãe, toda atarefada para não se esquecer de nada, enchia o porta-bagagem do Peugeot 404, cinzento, com grade no tejadilho, essencialmente, com roupa para todos nós. Afinal, éramos cinco crianças e ainda eram alguns dias de férias até à passagem de ano.
A viagem, feita normalmente já de noite pela estrada da Serra, era nesta altura acompanhada por um denso nevoeiro, que nos deixava ainda mais ansiosos, porque o pai tinha de conduzir devagarinho e nunca mais lá chegávamos. Mas a longa viagem, cheia de retas e curvas, subidas e descidas, paragens para recuperar dos enjoos e eventualmente deixá-los para trás, era compensada à chegada, pela recepção calorosa da tia Rosalina que, assim que ouvia o som do carro a chegar, corria para nos abrir o portão da casa e nos receber. E a nossa querida tia Rosalina, que me perdoem todas as outras em que me incluo, indiscutivelmente a Melhor Tia do Mundo, recebia-nos sempre com muita alegria e ternura! Os seus abracinhos fortes transmitiam a felicidade que genuinamente sentia por nos ver. E felizmente ainda assim nos recebe.
Íamos logo a correr, pelo terreiro a fora, procurar pela Avó. Normalmente, a Avó encontrava-se na "sua" cozinha a ultimar os brindeiros[2], que ela amassava num alguidar de madeira e que fazia questão de nos entregar em mão, um para cada um de nós. Vestida sempre de preto e de cabelo cinzento claro, apanhado sempre da mesma forma num tótó com ganchos pretos, recebia-nos com um abraço forte e meigo e envolto no cheiro a carvão que exalava da sua roupa. E lembro-me tão bem da "cozinha da avó": muito rústica, com uma janela e as paredes e o teto de traves grossas de madeira escurecidos pela fuligem do carvão. E o cheiro, inesquecível! Em frente à porta, havia uma mesa comprida de madeira grossa e bancos corridos que convidavam quem chegasse a sentar-se neles, nem que fosse por breves segundos como fazíamos. Sobre a mesa, um grande lençol branco, de algodão puro e muito pesado, dobrado em várias camadas, escondia e protegia do frio os tão ansiados brindeiros[1]. Alinhados de forma impecável, envoltos em farinha e ainda quentinhos, eram as testemunhas finais, se alguma réstea de dúvida alguma vez existisse, do amor e carinho com que tinha sido preparada a nossa chegada. E que bem sabiam, quentinhos, simplesmente barrados com manteiga. E se por acaso, nos tivéssemos adiantado, ainda tínhamos a sorte de poder ajudar a retirar do forno a lenha, com a ajuda da pá de cabo comprido, os vários pães envoltos em folhas de couve.
Depois íamos por momentos admirar a lapinha[2] com as searinhas, cujos grãos de trigo tinham sido semeados semanas antes. Com as peças pintadas à mão, musgo verdinho e algumas luzes a decorar, ano após ano, lá se mantinha o presépio no mesmo sítio, intocável.
No dia seguinte, pela manhã, o ritual consistia na visita às galinhas no galinheiro, ao porco, se não estivesse a ser preparado para a matança, e claro à vaca que nos mirava com os olhos esbugalhados, no palheiro.
E a nossa chegada só ficava concluída, quando estrada abaixo, corríamos para ir buscar a nossa querida amiga Nelinha, que passava o resto das férias connosco, ora na casa da avó ora na sua casa, onde podíamos brincar com os últimos brinquedos da moda.
Estes são alguns momentos que recordo, com tanta saudade e muita ternura, do meu Natal enquanto criança. De alguns brinquedos, pouco me recordo. Recordo valores como a alegria e o calor de estar em família, o amor, o carinho, a partilha e a amizade. E espero transmiti-los aos meus filhos. E que sejam desses valores que eles também se recordem, passados muitos anos. Feliz Natal!
E a nossa chegada só ficava concluída, quando estrada abaixo, corríamos para ir buscar a nossa querida amiga Nelinha, que passava o resto das férias connosco, ora na casa da avó ora na sua casa, onde podíamos brincar com os últimos brinquedos da moda.
Estes são alguns momentos que recordo, com tanta saudade e muita ternura, do meu Natal enquanto criança. De alguns brinquedos, pouco me recordo. Recordo valores como a alegria e o calor de estar em família, o amor, o carinho, a partilha e a amizade. E espero transmiti-los aos meus filhos. E que sejam desses valores que eles também se recordem, passados muitos anos. Feliz Natal!
[1] Pequena bola de pão, feita de farinha de trigo, oferecido às crianças pelo Natal
[2] Presépio de Natal
















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