17 dezembro 2014

Quem se lembra?

Gostava de um dia poder conseguir transmitir aos meus filhos tudo o que significa para mim o Natal. E tudo é, em especial, os momentos passados em família. O Natal devido à sua magia, e enquanto crianças, marca-nos com recordações para a vida. E gostava muito que eles pudessem recordar os seus Natais com a mesma alegria e carinho que recordo os meus. 
Os meus Natais de criança eram sempre passados em casa da minha avó materna, do outro lado da ilha. A ida para a "casa da avó", após a escola e nas vésperas do Natal, era sempre aguardada com muita ansiedade. Lá chegava o dia e a mãe, toda atarefada para não se esquecer de nada, enchia o porta-bagagem do Peugeot 404, cinzento, com grade no tejadilho, essencialmente, com roupa para todos nós. Afinal, éramos cinco crianças e ainda eram alguns dias de férias até à passagem de ano. 
A viagem, feita normalmente já de noite pela estrada da Serra, era nesta altura acompanhada por um denso nevoeiro, que nos deixava ainda mais ansiosos, porque o pai tinha de conduzir devagarinho e nunca mais lá chegávamos. Mas a longa viagem, cheia de retas e curvas, subidas e descidas, paragens para recuperar dos enjoos e eventualmente deixá-los para trás, era compensada à chegada, pela recepção calorosa da tia Rosalina que, assim que ouvia o som do carro a chegar, corria para nos abrir o portão da casa e nos receber. E a nossa querida tia Rosalina, que me perdoem todas as outras em que me incluo, indiscutivelmente a Melhor Tia do Mundo, recebia-nos sempre com muita alegria e ternura! Os seus abracinhos fortes transmitiam a felicidade que genuinamente sentia por nos ver. E felizmente ainda assim nos recebe. 
Íamos logo a correr, pelo terreiro a fora, procurar pela Avó. Normalmente, a Avó encontrava-se na "sua" cozinha a ultimar os brindeiros[2], que ela amassava num alguidar de madeira e que fazia questão de nos entregar em mão, um para cada um de nós. Vestida sempre de preto e de cabelo cinzento claro, apanhado sempre da mesma forma num tótó com ganchos pretos, recebia-nos com um abraço forte e meigo e envolto no cheiro a carvão que exalava da sua roupa. E lembro-me tão bem da "cozinha da avó": muito rústica, com uma janela e as paredes e o teto de traves grossas de madeira escurecidos pela fuligem do carvão. E o cheiro, inesquecível! Em frente à porta, havia uma mesa comprida de madeira grossa e bancos corridos que convidavam quem chegasse a sentar-se neles, nem que fosse por breves segundos como fazíamos. Sobre a mesa, um grande lençol branco, de algodão puro e muito pesado, dobrado em várias camadas, escondia e protegia do frio os tão ansiados brindeiros[1]Alinhados de forma impecável, envoltos em farinha e ainda quentinhos, eram as testemunhas finais, se alguma réstea de dúvida alguma vez existisse, do amor e carinho com que tinha sido preparada a nossa chegada. E que bem sabiam, quentinhos, simplesmente barrados com manteiga. E se por acaso, nos tivéssemos adiantado, ainda tínhamos a sorte de poder ajudar a retirar do forno a lenha, com a ajuda da pá de cabo comprido, os vários pães envoltos em folhas de couve. 
Depois íamos por momentos admirar a lapinha[2] com as searinhas, cujos grãos de trigo tinham sido semeados semanas antes. Com as peças pintadas à mão, musgo verdinho e algumas luzes a decorar, ano após ano, lá se mantinha o presépio no mesmo sítio, intocável. 
No dia seguinte, pela manhã, o ritual consistia na visita às galinhas no galinheiro, ao porco, se não estivesse a ser preparado para a matança, e claro à vaca que nos mirava com os olhos esbugalhados, no palheiro. 
E a nossa chegada só ficava concluída, quando estrada abaixo, corríamos para ir buscar a nossa querida amiga Nelinha, que passava o resto das férias connosco, ora na casa da avó ora na sua casa, onde podíamos brincar com os últimos brinquedos da moda. 
Estes são alguns momentos que recordo, com tanta saudade e muita ternura, do meu Natal enquanto criança. De alguns brinquedos, pouco me recordo. Recordo valores como a alegria e o calor de estar em família, o amor, o carinho, a partilha e a amizade. E espero transmiti-los aos meus filhos. E que sejam desses valores que eles também se recordem, passados muitos anos. Feliz Natal!

[1] Pequena bola de pão, feita de farinha de trigo, oferecido às crianças pelo Natal
[2] Presépio de Natal

Feliz Natal!



01 dezembro 2014

Época de caça

3, 2, 1 ... E está oficialmente aberta a Época de Caça ao Piolho na casa dos Quaresmas. 

No início do ano lectivo, muito sensatamente a professora, decidiu alertar-nos:
- Se os vossos filhos nunca tiveram piolhos, preparem-se porque vão ter logo. E não são pragas, é o ano inteiro...
Começou pela Mariana, com as duas mãos coçava desesperadamente a cabeça. Durante 2 semanas, espreitei cabelos, passei o pentinho e nada. Já andava intrigada, ou eu ainda não tinha aprendido o ritual corretamente: solução anti-piolhos + toalha branca + passagem do pente madeixa-a-madeixa - ou então eles eram muito matreiros. E pronto, de repente, lá foram apanhados, ainda meio taralhocos depois de terem mergulhado num valente banho de químicos. Ainda tentei, mas não consegui disfarçar a minha raiva quando lhes dava o golpe final. Não consigo descrever este sentimento único de pânico que me invade cada vez que ouço falar na palavra "piolho", provavelmente incutido desde a nossa infância. Não me lembro de ter tido os dito-cujos mas lembro-me de achar que os dito-cujos só atacavam os meninos que não tomavam banho. E juro, cumpro o meu dever de mãe à risca, dou banho às crianças todos os dias e mesmo assim a bicharada decidiu habitar a cabecita da minha pequenita. Não sei, é no mínimo perturbador, saber que um bichinho de aspecto horroroso, vive - provavelmente com a família inteira - na cabeça da minha filha, dorme aninhadinho no meio dos cabelinhos dela, vai para a escola com ela, assiste a todas as suas brincadeiras e até senta-se connosco à mesa... é demais! E ainda por cima anda por lá a procriar! E, como se ainda não bastasse, dá-lhe às vezes valentes dentadas. E saber que não consigo fazer nada para o evitar, é o fim! Entre óleo de lavanda atrás das orelhitas, perfumar o cabelo, etc, etc, são muitos os truques que existem para os prevenir. E imaginem só, vou testá-los TODOS, na certeza porém que de pouco deve adiantar. Estou desconfiada que me espera uma época de caça muiiiito longa. Socorro!

24 novembro 2014

Rodrigo, o Cromo!

Descrito pela própria professora como "O cromo", o Rodrigo tem aprendido muitas letras e é grande o seu entusiasmo quando consegue ler e escrever palavras. E quanto maior são as palavras que consegue ler, maior é o seu histerismo. Entre outras, aprendeu o "P" depois o "L" e aqui há dias chegou a casa a contar que a professora, com estas duas letras, ensinou-lhes a palavra "lapa". Como os outros meninos não sabiam o que era, a professora teve de explicar que eram uns bichinhos do mar que viviam agarrados nas rochas. O Rodrigo, em tom de "cromo", não conseguiu conter a sua sabedoria, colocou a sua mãozinha no ar e prontamente disponibilizou-se a explicar aos menos entendidos na matéria que ELE sabia o que era e que havia na Madeira. E acrescentou que já tinha comido e que até gostou e que as manas não gostavam mas afinal, nem tinham provado! 
Entre letras, palavras e outras iguarias, o Rodriguinho tem-nos deixado muito orgulhosos com os elogios da sua professora e acima de tudo com a vontade de querer aprender a ler tudo.

24 outubro 2014

06 setembro 2014

A 1ª. Visita da Fada dos Dentes

No dia 27 de Agosto, a Fada dos Dentes visitou pela primeira vez a casa dos Quaresmas.
No Reino dos Dentes, corria o boato que tinha "caído" um dentinho ao Rodrigo e então a Fada dos Dentes veio silenciosa durante a noite, espreitou cautelosamente debaixo da almofada e encontrou o dente bem embrulhadinho. Levou-o consigo e claro, em troca, deixou-lhe uma prenda: uma nota. 
Na manhã seguinte, a excitação era muita. As manas acordaram primeiro e aguardaram ansiosas para saber se a Fada sempre tinha vindo. Durante a noite não tinham ouvido nada e ficaram muito intrigadas como era possível a Fada conseguir entrar debaixo da almofada do Rodrigo sem o acordar. Finalmente o Rodrigo acordou e exibiu delirante a sua nota. Era verdade, a Fada dos Dentes tinha vindo!

(Antes)
      











(Depois)                                  













É bom que a Fada dos Dentes tenha decorado o caminho para a nossa casa, porque esta foi só a primeira de 60 visitas!

Verão 2014

Fotos de alguns momentos divertidos durante as nossas férias deste Verão:



...o "acampar" e que bom é saltar nos colchões, são tão fofinhos que até parecem insufláveis!


... o homem-aranha sempre pronto a trepar a "aranha"




... a caça ao tesouro e os baloiços


... a casinha e a tenda do palhacinho onde se assistiam aos espectáculos nocturnos


... a piscina das ondas onde demos muitos mergulhos e divertimo-nos imenso


... a volta nos carrinhos


... e acima de tudo a cumplicidade entre os buzicos que é cada vez maior!


01 setembro 2014

Rodriguices...

Durante o mês de Agosto e pela primeira vez, o Rodrigo começou a frequentar a colónia de férias no meu trabalho. Receosos que a sua timidez e a vontade de ficar em casa a brincar com a avó e a arreliar as manas o impedisse de aproveitar esta oportunidade que muitos meninos também gostariam de ter, decidimos arriscar e mais uma vez surpreendeu-nos: adorou, queria sempre voltar no dia seguinte e até fez amigos. A loucura pela piscina e por poder brincar na água superou tudo e todos.
No entanto, estar com meninos mais crescidos pode ter também os seus inconvenientes e eles adoram abusar da ingenuidade dos mais pequenitos. Sendo o Rodrigo um dos mais novitos tornou-se o alvo ideal. Ora vejam o episódio seguinte. Um dia decidi dar uma escapadela para espreitar o que estavam a fazer e encontrei-os todos sentadinhos na relva a lanchar e a conversar - até aqui tudo normal. De repente, vindo do nada, volta-se o Rodrigo para mim, com um ar muito orgulhoso de si e diz:
- Oh, mãe, sou gay!
Eu, com esperança que tivesse ouvido mal, voltei a perguntar:
- Hã, o que é que disseste?
(e confirmou) - Sou gay, mãe!
(eu) – És gay ???
Entretanto, os miúdos sentados ao lado dele desataram a rir-se à gargalhada. E, já a perceber o que se estava a passar, perguntei-lhe:
(eu) - Ai é? E então, porque é que és gay? Sabes o que significa ser gay?
E sem perceber a razão da minha ignorância, confirmou muito decidido:
- Sou gay, mãe, porque sou muito forte e crescido!
Olhei para os miúdos ao seu lado e sem lhes fazer perceber que até tinha achado alguma piada à brincadeira, perguntei quem é que lhe tinha ensinado a nova palavra e claro, começaram a acusar-se mutuamente.
Virei-me para o Rodrigo, e em jeito de mãe-galinha, disse-lhe bem alto de forma a que os 'espertalhões' ouvissem:
- Deixa lá, Rodrigo, eles também são gays, porque são maiores do que tu! :-p
Depois, no final do dia, tive de lhe explicar que antes de repetir o que os outros meninos lhe ensinam, tem de confirmar connosco e que ser gay não é o que lhe explicaram, é um menino que gosta de outro. E fiquei-me por aqui. Não senti necessidade de aprofundar mais o assunto. Acho que ele não percebeu muito bem o que se passou mas, por enquanto mais vale assim. 
Considerando estes dias um estágio para se ambientar a estar no meio do gandulos daqui a uns dias, até acho que não correu mesmo nada mal. 





01 agosto 2014

Mamã...

 de massa, feita pelas M's:


ou em balão com a respectiva artista - Matilde:


ou versão "andar por casa", com os respetivos óculos e o baú para arrumar os brinquedos, feito pela Mariana:



E a mamã sempre com um grande sorriso! 

26 junho 2014

Preocupações de 6 anos...

Conversa do Rodrigo ao jantar, a deliciar-se com iogurte de bolacha e banana:

(Rodrigo) - Oh mãe, quando eu crescer vai haver Bimby?
(Eu) - Claro, Rodrigo, porquê?
(Rodrigo) - É que eu quero ter uma.... a Bimby faz tudo! 

Pensei cá para os meus botões: se uma criança de 6 anos já percebeu, porque é que há adultos que não querem aprender? E dei-lhe a resposta politicamente correta:
(Eu) - Primeiro tens de ir para a escola, depois arranjas um emprego, compras a tua casa e depois a mamã ajuda-te a arranjares uma Bimby só para ti!

Bem, pensando melhor, pelo andar que o país leva, só mesmo herdando a minha velhota...

Deixar a chucha: checked!

Está a fazer uma semana que a Mariana decidiu deixar a chucha. Aproximou-se do "caixó lixo" e atirou-a lá para dentro, com toda a determinação. Fizemos uma grande festa e explicamos que ela tinha deixado de ser um bebé e que agora se tinha tornado numa menina crescida. De imediato, olhou para baixo e reparou, radiante:
- Vês mamã, até as calças ficaram mais curtas! :-)
E de imediato concluiu a Matilde:
- Oh mãe, agora na casa dos Quaresmas, ninguém usa chucha!
É verdade, mais uma página virada, sinal de crescimento ...

24 abril 2014

6 aninhos!

Parece uma frase feita mas é a verdade, lembro-me como se fosse ontem, do dia em que nasceste: 24 de Abril de 2008. 
Eras o meu primeiro filho e a alegria de ser mãe absorveu todos os receios que um momento tão imprevisível pode gerar. Correu tudo muito bem. Parece que ainda hoje sinto a emoção de quando te colocaram no meu peito. Aconchegado pelas minhas mãos, pequenino, cabeludo, calminho. 
Tudo parecia um sonho. Passava horas a olhar para ti. E a sensação de  acalmar o teu choro só com um murmúrio da minha voz. Tão bom! Lembro-me de não querer adormecer, para estar sempre ao teu lado, vigilante. Afinal naqueles momentos, dependias só de mim. E o peso dessa responsabilidade era um sentimento tão novo para mim.
No dia seguinte, tiveste muiiitas visitas, era feriado e todos estavam ansiosos por te conhecer. Recordo-me de todos - da alegria dos avós e dos tios. 
E os meses, em que estivemos só nós os dois em casa, foram tão especiais. Guardo-os para sempre no meu coração de mãe. 
Passaram 6 anos e agora estás um rapazinho. Curioso, tímido, meiguinho.
Quero passar muito mais anos ao teu lado. 
Parabéns, meu bébé!



20 março 2014

Homework

Trabalho da prof. de Inglês para o Rodrigo:

"Aos Pais e Encarregados de Educação:

Venho por este meio solicitar a vossa colaboração para a criação de um pequeno trabalho (...) no sentido de consolidar o vocabulário já trabalhado em aula. No âmbito desta unidade trabalhámos os seguintes vocábulos: 
- tree (árvore)
- green (verde)
- apple (maçã)
- red ( vermelho)
- sun (sol)
- yellow (amarelo)
- sky (céu)
- blue (azul)
Proponho a criação de um cartaz, cenário, história, flashcards, ou outro trabalho à vossa escolha, em que estes vocábulos sejam referidos. Deve, ainda, ser introduzida no trabalho a mascote da unidade (...) o Kenny, um gatinho muito simpático (...). Ficamos a aguardar os resultados, que serão expostos no nosso English Corner (Cantinho Inglês). Bom trabalho! A Professora de Inglês".

Depois de algumas idas à loja da "Chinoca", de recortes e colagens e algumas horinhas no fim-de-semana, conseguimos cumprir na íntegra as exigências da prof e eis o resultado:

Nada mau, Rodrigo ;-)

Visita dos avós e das titias....

... tias Dília e Rosalina, da avó Cecília e do avô:


De 2 a 6 Março 2014. 
E já estamos outra vez cheios de saudades!

13 março 2014

Carnaval 2014

 Rodrigo Bombeiro, Mariana Palhaço e Matilde Doutora Brinquedos:



No more diapers, no more diapers!

Passo a passo, as M's vão deixando de ser bébés:
Falam imenso, apesar de algumas palavras ainda saírem "abebezadas". 
Comem perfeitamente sozinhas apesar de, para monopolizarem a nossa atenção, usarem o pretexto de precisarem de ajuda. 
Despem-se e vestem-se sozinhas, apesar de ser ainda complicado nas roupas com botões.
Bebem pelo copo, apesar de à noite, por vezes ainda pedirem o "titinho no bibon".

Mas o grande acontecimento deu-se esta semana: deixaram de usar definitivamente a fralda, inclusivé durante a noite! Como mandam as regras, e sem grandes pressas, respeitamos o ritmo de cada uma. Começou pelo entusiasmo em deixar a fralda durante o dia e passar a usar as cuequitas bem giras com os desenhos que elas escolheram. Depois o entusiasmo em ir à sanita como os crescidos fazem. Depois o entusiasmo - delas, não meu - em acordar durante a noite para ir ao bacio. E passo a passo, fraldinha seca após fraldinha seca, noite após noite, primeiro conseguiu a Mariana e depois a Matilde.
Acabaram-se as corridas às promoções de fraldas. Acabou-se o porta-bagagem do carro transformado em armazém, atulhado com fraldas e toalhetes. Acabou-se a invasão da minha mala - cada vez que saíamos à rua, metade do espaço da minha mala era ocupado com as dita-cujas.
Estou muito contente porque significa que elas estão a crescer mas essa alegria vem envolta num travozito de nostalgia... Nostalgias de mãe :-)