28 março 2013

"A aprendizagem da arte da chantagem emocional"

"O mundo das gémeas alarga-se, assim como a sua capacidade de usar o poder sobre nós que conquistaram ao longo destes dois anos, para nos manipularem a contento. Agora fazem escolhas de A sobre B, retaliam quando contrariadas, canalizando o seu afecto ou atenção para quem mais lhes convém no momento, e aprendem, a cada dia, a usar a seu favor as malhas da lei doméstica. Crescem, portanto.
Em termos práticos, se é a mãe que as quer levar para o banho, gritam pelo pai, como donzelas que esperam que o seu cavaleiro andante não as abandone num momento de aflição, mas se é o pai que lhes tenta lavar a cabeça, clamam pela mãe, seguras de que as salvará de uma tortura tão violenta como aquela, mesmo quando utilizado um champô que a publicidade garante não dar direito a lágrimas. Fora da redoma familiar mais próxima, o jogo continua. Se ficam com a avó choramingam por ver a mãe partir, mas se é a avó a sair pela porta, gritam desesperadas... pela constatação de que fugiu com ela a oportunidade de irem aos escorregas, ou andar no carro do Noddy.
Esta iniciação à chantagem emocional deixa a família ligeiramente perturbada. Todos queremos ser os que figuram na lista dos tops, aquela figura indispensável sem a qual elas não imaginam a vida. E sem darmos por isso lá vamos mergulhar nas nossas feridas, nas rejeições de que fomos alvo, e reagir com má disfarçada irritação, às vezes mesmo com amuo, por muito infantis que esses comportamentos nos façam sentir. Os pais, e sobretudo as mães, são as vítimas de primeira linha, porque tudo acende a sua culpabilidade. Se chama pela ama ou pela educadora, a mãe sente o mundo a desabar, convencida de que já foi substituída, e que tudo se deve àquela reunião que a tirou de casa mais horas do que estava previsto. Se a criança exige o pai, é a vez de se sentir indignada e furiosa, então agora é o pai, quando é ela que a “atura” todo o dia? Pobres mães, que dão tudo de si, e mesmo assim se sentem sempre em dívida, como se alguma vez o amor dos filhos pudesse correr risco.
Mas os avós também são presas fáceis, porque por um lado investiram muito nos netos, por vezes até demais, por outro não conhecem a natureza desta nova relação que, consoante a sua experiência pessoal lhes pode parecer mais ou menos acessória, e finalmente é provável que já se estejam a sentir pouco relevantes, angustiados pela perspectiva do envelhecimento, que é um beco sem saída. Se a filha se queixar de que a criança acaba de lhe trocar o nome pelo da ama, riem divertidas, certas que por muito importantes que sejam essas pessoas na vida dos seus netos, como desejavelmente são, nunca ameaçam o seu amor por uma mãe. Contudo, se os netos quiserem sair do seu colo para o da babysitter ou, quando os deixam na escola, correrem sem olharem para trás, sentem um nó na garganta. Para que lhes serve agora uma velhinha, quando há tanta gente nova e cheia de energia à sua volta? Para que lhes serve uma avó, quando estão a crescer tão depressa, têm pais, irmãos, professores, tanta gente na sua vida?
As gémeas testam o mundo e tiram partido dele. A seu favor, como é certo que seja. A nós cabe-nos ser capazes de analisar as emoções que nos provocam e separar aquelas que dizem mais sobre nós, do que sobre elas, e que vamos ter de resolver interiormente, e aquelas para as quais legitimamente lhes devemos chamar a atenção. Sem chantagens emocionais, nem dramas e, sobretudo, com muito sentido de humor – nunca se esqueça do que pode fazer nas horas em que o seu neto está feliz na escola, ou de como é melhor ir às compras sem crianças atreladas."
Escrito por Isabel Stilwell [escritora e avó de 2 gémeas]